Era final de noite, eu já embriagado,
a música era alta, não me recordo do que tocava naquele momento, mas me recordo
muito bem dela, dançando sozinha, seus movimentos eram suaves e graciosos,
embora fosse completamente desajeitada. Tudo o que eu havia bebido durante toda
a noite me dera a coragem para abordá-la, estava escuro, sei que ela mal pôde
ver meu rosto e, mesmo assim, aceitou me dar alguma atenção. Cecília era
bonita, seu olhar era inocente e profundo, de uma encantadora escuridão
profunda, onde por intermináveis instantes me perdi, ou melhor, me encontrei,
pois era fácil me encontrar nos olhos de Cecília.
Depois de dois dias voltamos
a nos ver, Cecília falava pouco e ouvia bastante, eu, como de costume, falava
em excesso. Divagava em torno de meus estudos, sobre música e arte em geral;
falava da vida e dos lugares por onde havia andado até então. E ela sempre a me
ouvir, calma, de um semblante ameno, como se o mundo se resumisse em minhas
palavras, e talvez, para ela, assim fosse.
Lembro-me com muitas
saudades do olhar de Cecília, era forte e capaz de atingir o horizonte, ao
mesmo tempo em que carregado de uma doçura quase infantil. Durante os primeiros
dias de nossos encontros eu me perguntava constantemente o que a vastidão de
seu olhar carregava, que medos ela traria consigo? Quais traumas a teriam
marcado durante a infância e adolescência? Quais seriam suas crenças, sua visão
da vida e sobre as pessoas... O tempo trouxe grande parte das respostas de que
precisava, bem como outros questionamentos que estavam muito além das minhas
expectativas com relação a ela.
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