Certa vez estava eu, atravessando as ruas escuras da madrugada, já alta ia a noite e sozinho ia eu, levado pela fumaça de um cigarro. As ruas eram ermas e as lâmpadas dos postes pareciam apagar à medida que eu caminhava abaixo delas. Enquanto eu caminhava, uma estranha sensação tomava conta de mim, uma ligeira impressão de que eu estaria sendo seguido, apressei os passos. A sensação aumentava de acordo com que eu aumentara a velocidade de meus passos; a essa altura, evitava a qualquer custo olhar para trás. Foi quando, da rua vazia, ecoando na noite, ouvi uma doce, porém firme voz a me chamar:
-Não fuja Poeta!
Imediatamente fiquei paralisado.
-Eu sou seu fado. Ele disse.
Lentamente, virei-me de costas, para conhecer a face do dono da voz. Minha surpresa aumentou ainda mais quando o vi: era de estatura média, possuía cabelos encaracolados, curtos e loiros como o fio d’ouro, seus olhos eram azuis como o céu das manhãs mais mornas de verão. Era trajado com uma túnica branca e possuía um par de azas brancas saindo das costas, assim como uma pintura de Caravaggio. Permaneci admirando-o estático, até que indaguei:
-Quem é você?
Ele sorriu e disse calmamente:
-Sou Eros, você já me conhece de tempos atrás.
-E o que queres tu de mim?
-Vim avisar-te para não mais fugires de mim.
-Sabes que o tema de que me ocupo é o amor.
-Então, imagino que saibas que desse há muito me tenho despido.
-Não sejas tolo, sabes que precisas de amor.
-Sobre isso nada sei. Eu disse enquanto acendia um cigarro.
-Não poderás te esconder de mim a tua vida inteira.
-Não preciso esconder-me de ti, à mim basta desviar de tuas flechas.
-Preferes ser um Poeta sem amor? Admita, tu precisas de mim.
-Eu preciso deste cigarro, de ti não quero nada.
-Agora te fazes de incrédulo?
-Não vejo como tu podes me convencer do contrário.
-Olhe para mim e veja: eu sou a aurora vindoura do amanhecer.
-Apenas vejo o cair da noite.
-Eu sou os campos férteis da Arcádia, onde pastores de todas as terras vêem entoar cantos às suas amadas.
-Pois em ti vejo apenas as flores do mau que brotam de um pó escuro e estéril do que sobrou do funeral dos corações nos quais você habitou.
-Meu caro, porque me renegas? Lembro-me de quando passavas madrugadas a declamar versos em meu nome por donzelas sob a luz da lua cheia.
-Os tempos são outros, já não carrego mais comigo minha Lira dos Vinte anos; já muito sucumbi em ti, ó filho de Afrodite.
-Há muito ainda que tens a conhecer. Não te interessas?
-A mim apenas interessa a ignorância quando se trata de ti. Prefiro o castigo de Prometeu a ser flechado por ti novamente e em muito compadeço daqueles que ainda estão por se tornarem vítimas tuas.
-Mentes! -Disse irritado- Tens inveja dos que por mim foram cativados, dos que conhecem o significado do meu nome.
- Já conheci o verdadeiro significado do teu nome e para mim tu és Tanatos. Talvez agora tentes me convencer a ser complacente com todos os que amam. Para trás de mim Eros!
Virei de costas e continuei meu caminho, logo após, o anjo torto bateu azas e voou a procura de uma nova vítima para seus funestos objetivos. Depois disso, o amor nunca mais tornou a me encontrar pela noite.