terça-feira, 3 de julho de 2012

Cecília




Era final de noite, eu já embriagado, a música era alta, não me recordo do que tocava naquele momento, mas me recordo muito bem dela, dançando sozinha, seus movimentos eram suaves e graciosos, embora fosse completamente desajeitada. Tudo o que eu havia bebido durante toda a noite me dera a coragem para abordá-la, estava escuro, sei que ela mal pôde ver meu rosto e, mesmo assim, aceitou me dar alguma atenção. Cecília era bonita, seu olhar era inocente e profundo, de uma encantadora escuridão profunda, onde por intermináveis instantes me perdi, ou melhor, me encontrei, pois era fácil me encontrar nos olhos de Cecília.
Depois de dois dias voltamos a nos ver, Cecília falava pouco e ouvia bastante, eu, como de costume, falava em excesso. Divagava em torno de meus estudos, sobre música e arte em geral; falava da vida e dos lugares por onde havia andado até então. E ela sempre a me ouvir, calma, de um semblante ameno, como se o mundo se resumisse em minhas palavras, e talvez, para ela, assim fosse.
Lembro-me com muitas saudades do olhar de Cecília, era forte e capaz de atingir o horizonte, ao mesmo tempo em que carregado de uma doçura quase infantil. Durante os primeiros dias de nossos encontros eu me perguntava constantemente o que a vastidão de seu olhar carregava, que medos ela traria consigo? Quais traumas a teriam marcado durante a infância e adolescência? Quais seriam suas crenças, sua visão da vida e sobre as pessoas... O tempo trouxe grande parte das respostas de que precisava, bem como outros questionamentos que estavam muito além das minhas expectativas com relação a ela.