sábado, 6 de fevereiro de 2010

Get Behind Me Eros!


Certa vez estava eu, atravessando as ruas escuras da madrugada, já alta ia a noite e sozinho ia eu, levado pela fumaça de um cigarro. As ruas eram ermas e as lâmpadas dos postes pareciam apagar à medida que eu caminhava abaixo delas. Enquanto eu caminhava, uma estranha sensação tomava conta de mim, uma ligeira impressão de que eu estaria sendo seguido, apressei os passos. A sensação aumentava de acordo com que eu aumentara a velocidade de meus passos; a essa altura, evitava a qualquer custo olhar para trás. Foi quando, da rua vazia, ecoando na noite, ouvi uma doce, porém firme voz a me chamar:

-Não fuja Poeta!

Imediatamente fiquei paralisado.

-Eu sou seu fado. Ele disse.

Lentamente, virei-me de costas, para conhecer a face do dono da voz. Minha surpresa aumentou ainda mais quando o vi: era de estatura média, possuía cabelos encaracolados, curtos e loiros como o fio d’ouro, seus olhos eram azuis como o céu das manhãs mais mornas de verão. Era trajado com uma túnica branca e possuía um par de azas brancas saindo das costas, assim como uma pintura de Caravaggio. Permaneci admirando-o estático, até que indaguei:

-Quem é você?

Ele sorriu e disse calmamente:

-Sou Eros, você já me conhece de tempos atrás.

-E o que queres tu de mim?

-Vim avisar-te para não mais fugires de mim.

-Sabes que o tema de que me ocupo é o amor.

-Então, imagino que saibas que desse há muito me tenho despido.

-Não sejas tolo, sabes que precisas de amor.

-Sobre isso nada sei. Eu disse enquanto acendia um cigarro.

-Não poderás te esconder de mim a tua vida inteira.

-Não preciso esconder-me de ti, à mim basta desviar de tuas flechas.

-Preferes ser um Poeta sem amor? Admita, tu precisas de mim.

-Eu preciso deste cigarro, de ti não quero nada.

-Agora te fazes de incrédulo?

-Não vejo como tu podes me convencer do contrário.

-Olhe para mim e veja: eu sou a aurora vindoura do amanhecer.

-Apenas vejo o cair da noite.

-Eu sou os campos férteis da Arcádia, onde pastores de todas as terras vêem entoar cantos às suas amadas.

-Pois em ti vejo apenas as flores do mau que brotam de um pó escuro e estéril do que sobrou do funeral dos corações nos quais você habitou.

-Meu caro, porque me renegas? Lembro-me de quando passavas madrugadas a declamar versos em meu nome por donzelas sob a luz da lua cheia.

-Os tempos são outros, já não carrego mais comigo minha Lira dos Vinte anos; já muito sucumbi em ti, ó filho de Afrodite.

-Há muito ainda que tens a conhecer. Não te interessas?

-A mim apenas interessa a ignorância quando se trata de ti. Prefiro o castigo de Prometeu a ser flechado por ti novamente e em muito compadeço daqueles que ainda estão por se tornarem vítimas tuas.

-Mentes! -Disse irritado- Tens inveja dos que por mim foram cativados, dos que conhecem o significado do meu nome.

- Já conheci o verdadeiro significado do teu nome e para mim tu és Tanatos. Talvez agora tentes me convencer a ser complacente com todos os que amam. Para trás de mim Eros!

Virei de costas e continuei meu caminho, logo após, o anjo torto bateu azas e voou a procura de uma nova vítima para seus funestos objetivos. Depois disso, o amor nunca mais tornou a me encontrar pela noite.

3 comentários:

  1. Boy... always a gotic! evergotic! hehehehe...
    Pra mim vc sempre assina seus textos, mesmo q lá no fundo, com Evigótico

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  2. vc postou isso escutando Bauhaus?!?!?!?!?!
    rsrs...
    gostei do conto, principalmente pelo pé na bunda do Eros (sou devoto de Baco)rsrsrs
    um abraço...

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  3. Concordo com o Thiago
    Evi Aguiar( o evi mundo não é só seu).

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